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A Propósito de "Mudanças Rápidas"

Vanderlei Silva 

Publicado em 30/07/2001

Um conceito qualquer quando repetido ad absurdum tende a ser aceito como verdade.  Os efeitos da propaganda do nazismo e das crenças de Hitler geralmente são citados como exemplo da força da repetição.

A velocidade das mudanças que ocorrem hoje tem sido mencionada com freqüência como motivo para estimular mudanças em nossas atitudes, seja na carreira profissional, nos negócios ou na vida pessoal.

Há muito tempo ninguém mais dúvida de que mudanças de atitude e comportamento na direção certa beneficiam a pessoa que conseguir realizá-las, independente das mudanças que estejam ocorrendo fora da pessoa. Estas sempre ocorreram, em maior ou menor velocidade.

A velocidade das mudanças tem aumentado consideravelmente nas últimas décadas. No entanto, tanto as mudanças quanto a rapidez com que elas ocorrem são, na maioria dos casos, previsíveis e até esperadas.  É raro ocorrer uma mudança real, concreta, de alto impacto, que seja uma grande surpresa. 

Vejamos um exemplo que qualquer um pode confirmar: o microcomputador.  Quantos anos foram necessários para que essa ferramenta pudesse realmente fazer a diferença na vida de milhões de pessoas?  Os benefícios que hoje obtemos com o microcomputador, incluindo a evolução do hardware e do software, já eram previsíveis há mais de duas décadas.  A Internet? Quantos anos foram necessários para que ela se tornasse uma realidade? A quebradeira das “ponto com”?  Sempre houve espertos no mundo, de empreendedores a vigaristas (os que lucraram primeiro), e sempre houve incautos e despreparados (os que quebraram depois).

Uma das empresas mais poderosas do mundo no campo da alta tecnologia, a Microsoft, tem dinheiro para contratar os melhores talentos do planeta. Desde 1995 a Microsoft não consegue introduzir mudanças revolucionárias num dos seus principais produtos, o sistema operacional Windows. O que nós fazíamos utilizando o Windows 95, nós continuamos a fazer utilizando o Windows Me, e provavelmente continuaremos a fazer utilizando o Windows XP, a próxima versão do produto. 

As mudanças que ocorreram nesse produto da MS foram apenas melhoramentos previsíveis e esperados.  Aliás, na opinião dos “computer geeks”, muitos desses melhoramentos ficaram abaixo das expectativas. Características de segurança, rapidez, eficiência, “cool features” etc., são aperfeiçoamentos esperados de qualquer produto, ao longo do tempo.

Tudo que depende de processamento por computador é feito muito mais rápido hoje do que há 20 anos.  Mas o resultado esperado é basicamente o mesmo.  A melhora prevista na qualidade da informação produzida por meio do computador foi justamente o motivo de todos os investimentos feitos para provocar essa “mudança”.

Portanto, as causas das mudanças de maior impacto em nossas vidas são idealizadas e planejadas com antecedência.  E a execução dos planos para concretizar essas mudanças geralmente sofre atrasos (lançamentos de novas versões do Windows, por exemplo).  Como podemos  alegar que a mudança foi rápida e inesperada?

O grande problema das mudanças tem a ver exatamente com o contrário da velocidade. As mudanças importantes ocorrem de forma tão lenta que as pessoas não se dão conta de que houve qualquer mudança.  Mudanças superficiais, cosméticas, ocorrem de forma rápida.  Mudanças essenciais, de alto impacto, demoram.

Vejamos um exemplo no campo da administração, em que os conhecimentos e conceitos mudaram progressivamente ao longo do século passado. Quem já trabalhou numa empresa familiar com mais de 40 ou 50 anos de existência, provavelmente sabe como a lentidão das mudanças pode comprometer o futuro da empresa.  Os dirigentes que estão há muito tempo no comando da empresa insistem em administrar a empresa usando os conceitos da chamada “administração científica” (divisão do trabalho, supervisão cerrada), desenvolvidos no início do século XX.  Os sucessores, ou profissionais contratados recentemente, que cresceram no mundo da “administração participativa” (responsabilidade compartilhada, descentralização), querem que a empresa tenha uma administração moderna.  Os antigos dirigentes querem manter o paternalismo e insistem em cobrar obediência a todo custo. Já os sucessores querem introduzir a “meritocracia”, conceito que teve aceitação mais generalizada na última metade do século passado.

Na vida profissional acontece coisa semelhante.  Quem tem hoje acima de 40 anos, e não desenvolveu uma carreira em bases sólidas, mesmo que esteja bem empregado, provavelmente está, ou estará em breve, muito preocupado em manter alguma perspectiva de melhorar ou garantir a continuidade do seu atual padrão de vida, bem como uma aposentadoria decente.

O motivo da preocupação desses profissionais é a falta de percepção da acumulação de pequenos incrementos de mudanças iniciadas há muitos anos atrás.  De repente, tudo parece ter mudado radicalmente.  Como o sapo da fábula, não percebemos a mudança da temperatura da água.

Se cada pequena mudança fosse assimilada imediatamente, o próprio conceito de “velocidade da mudança” talvez só fizesse sentido do ponto de vista histórico.  Um processador Pentium III de 800mhz é muito mais rápido do que um DX2 de 66mhz.  Mas para quem sempre foi um usuário “intensivo” de computador, um é relativamente tão lento quanto o outro. Um grande salto, do ponto de vista tecnológico e histórico; nenhuma mudança relativa significativa, do ponto de vista das necessidades do usuário.  A “mudança fantástica” mudou pouco a rotina do usuário porque ele acompanhou cada incremento da mudança ao longo dos anos (fazendo a atualização do hardware e do software).

A disseminação da crença sobre a fatalidade da “velocidade das mudanças” pode eventualmente ajudar quem vende produtos e serviços relacionados com treinamento e desenvolvimento pessoal.  Para o resto das pessoas, essa “intimidação psicológica”, se assim podemos dizer, pode derrotá-las antes mesmo de elas começarem. 

Na vida pessoal ou profissional, ou no comando de uma grande empresa, aparentemente o planejamento, contemplando a definição dos objetivos e a elaboração e acompanhamento dos planos de ação, é o melhor antídoto para surpresas causadas por eventuais mudanças bruscas.  Para mudanças lentas, o planejamento permite identificar, em tempo hábil, os pequenos incrementos de mudanças no ambiente.

O grau de sofisticação do planejamento pode variar em função da necessidade de cada um.  Para as pessoas que lêem em inglês, a Internet exibe farto material sobre planejamento pessoal.  Quem só lê em português, precisará gastar um pouco na compra de livros.  As empresas precisarão gastar um pouco mais com consultorias especializadas.

“Na vida, todos temos de sofrer uma de duas dores: a dor da disciplina ou a dor do arrependimento.  A diferença é que a dor da disciplina pesa gramas e a dor do arrependimento pesa toneladas” (Jim Rohn, “America´s foremost business philosopher”,  www.jimrohn.com ).

Vanderlei Silva é consultor, especializado em ajudar empresas a selecionar, organizar, remunerar, incentivar e melhorar o desempenho de seus profissionais. Para contatá-lo, envie e-mail para  vsilva@promerito.com.br ou ligue para 31-3285-0120, em Belo Horizonte,MG.

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